É comum ouvirmos relatos de pessoas que gostariam de ter uma vida sem stress. Sei que vou frustrar algumas delas com a informação a seguir mas, por ser um fato científico, como pesquisador tenho o compromisso em promover a verdade, mesmo que a Medicina seja a ciência das verdades transitórias ...
O fato é que devemos agradecer a existência do stress ! Ele foi e ainda é fundamental para a manutenção da vida e a evolução da humanidade.
Imaginemos por alguns instantes que estamos na pré-história, à beira de um lago para nos refrescar, quando de repente somos surpreendidos por um visitante inusitado, um tigre dente de sabre.
Naquele instante, não importa se ele deseja beber água ou nos degustar como tira gosto. O instinto de sobrevivência entra em ação ativando o sistema simpático que nos deixa prontos para “bater ou correr” – e nesse caso, seria melhor correr.
Para realizar uma dessas ações a respiração fica predominantemente torácica e com sua freqüência aumentada na tentativa de captar mais oxigênio, o combustível do corpo. O coração bate acelerado na tentativa de espalhar este recurso rapidamente a todo organismo.
Outro fenômeno que também ocorre é o direcionamento do fluxo sanguíneo predominantemente aos músculos, que ficam contraídos, possibilitando maior força e proteção, como conseqüência a pele fica mais pálida e fria. Assim evita-se uma maior perda sanguínea em caso de lesões na superfície corpórea, onde pode-se notar o aumento do suor que, entre outras funções, auxilia a uma fuga mais escorregadia.
Este mecanismo de alarme é orquestrado instantaneamente de forma extremamente harmoniosa por partes mais primitivas, e não menos importantes, do nosso cérebro que tem como regentes principais os hormônios do stress: adrenalina e cortisol.
Como a natureza é sábia e prima pelo equilíbrio, caso tenhamos sobrevivido ao ataque daquele tigre, o corpo buscará poupar energia e assim desligará o mecanismo de resposta ao estresse com o acionamento do sistema parassimpático que, em linhas gerais, faz o oposto do simpático: a respiração fica mais calma e abdominal, o coração bate de forma mais tranqüila, os músculos relaxam e o sangue retorna a periferia tornando a pele corada e aquecida. Neste caso, os hormônios principais envolvidos são a endorfina, a dopamina e a serotonina.
Até aqui, verificamos que este mecanismo de resposta ao stress foi fundamental para a preservação da espécie humana e se faz necessário em situações “desafiadoras” do dia-a-dia, como atravessar uma rua em alguns centros urbanos, mesmo na faixa de pedestre, fazer uma apresentação em público, praticar um esporte e até mesmo em uma relação sexual.
Um outro fator que foi fundamental para o Homem ter chegado aos dias de hoje é a capacidade única de imaginar eventos futuros e lembrar de experiências passadas, esta habilidade possibilitou acelerar a aprendizagem e promover maior segurança e eficácia.
Paradoxalmente este recurso evolutivo pode ser a grande armadilha para algumas pessoas pois como nossa mente e corpo são intimamente conectados, o pensamento aciona circuitos cerebrais que estimulam a produção de uma série de hormônios promotores de respostas fisiológicas em nosso corpo deixando-nos pronto para a ação.
O problema surge quando equivocadamente achamos que ainda nos encontramos na beira daquele lago com o predador ao lado ou enxergamos na sombra de um gatinho um possível leão.
Isso faz com que a resposta de stress seja acionada rotineiramente elevando os níveis de cortisol e adrenalina, que podem aumentar a irritabilidade e as tensões musculares, elevar a pressão arterial e “enfraquecer” o sistema imunológico.
Em contrapartida, também podemos voluntariamente fortalecer a nossa resposta parassimpática através de formas diferentes de pensar, estados emocionais que optamos acessar, exercícios de relaxamento e meditação, além de uma série de atividades da Medicina Comportamental que auxiliam a equilibrar de forma mais interessante a gangorra do gerenciamento do stress.
Dr. Leandro Romani de Oliveira
Tags: Comportamental, Medicina, meditação, parassimpático, relaxamento, simpático, stress
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Muito bom !! Gostei da explanação !!!
No entanto gostaria de saber como funciona o organismo que recebe medicamentos como antiansiolítico, sob estresse ?
Parabéns Dr. Leandro.
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